Reuniões Loja Simbólica:  Segundas feiras às 20h /  Reuniões Lojas Filosóficas: Quintas feiras às 20h

 


 

 
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"EM LOJA, MEUS IRMÃOS!"   

José Maurício Guimarães


No artigo anterior, intitulado "Preocupo-me Com a Democracia Maçônica", falamos do perigoso meio-termo quando se trata de praticar democracia deliberativa. O artigo provocou muitos comentários entre os Irmãos ‒ tanto pessoalmente como através de e-mails recebi asserções e interpretações, positivas ou negativas; mas a maioria delas favoráveis ‒ Irmãos que também se preocupam quando veem nossa força se dissipar em disputas por cargos e mesquinhas divergências pessoais.

Houve mesmo aqueles bondosos Irmãos que me aconselharam a não escrever mais sobre o assunto... ("é para o seu bem", disseram). Outros tentaram me convencer de que a Maçonaria não é democracia, e sim uma monarquia onde o direito suserano e sucessório no trono de Salomão age paternalístico sobre a massa de vassalos mudos e obedientes em feudos chamados Lojas.

Ainda outros que ‒ nas palavras do antigo político brasileiros ‒ são saudosos "filhotes da ditadura" ‒ repetiram o mesmo discurso daquele irmão carnal de Getúlio Vargas, o neomaçom Viriato Dornelles Vargas, que nutria uma visão governista e distorcida da Maçonaria:

"A democracia é como um chapéu de borracha muito elástico, em que cabem todas as cabeças. A questão é de maior ou menor pressão."(1)

A todas essas considerações dei a máxima atenção e fiz anotações delas "ad perpetuam rei memoriam" (para perpetuar a lembrança da coisa) e para futuras demonstrações, mesmo porque não existe o crime de opinião.

Os Irmãos que se deram ao cuidado de estudar as Constituições de Anderson em sua versão original (2) e os Landmarks de Mackey, poderão ser republicanos (que é o meu caso), monarquistas (que não é o meu caso) ou autoritaristas (que absolutamente não é, nunca foi, nem será o meu caso). Mas em todas essas vertentes tem que prevalecer o consenso expresso no Landmark nº 25, de que as Leis fundamentais da Maçonaria não podem ser alteradas (nolumus leges mutari, em bom latim).

É verdade que os tempos mudaram e a Maçonaria deve se modernizar na forma, jamais no conteúdo. Considerem que Anderson escreveu as Constituições com a marca deliberativa (e democrática) num país que jamais abriu mão da monarquia: a Inglaterra.

Aprendam o melhor possível que a alteração de princípios fundamentais destrói a Maçonaria e a transforma noutra coisa: num clube de serviço, numa organização de trabalhos voluntários, numa academia... até mesmo numa religião ‒ mas nunca numa instituição iniciática.

Mackey fez dramática ressalva sobre este particular no Landmark nº1, falando dos processos de reconhecimento, mas apontando para as bases da Maçonaria (os Antigos Deveres ou Old Charges) que são os mais legítimos e inquestionáveis alicerces sobre os quais se apoiam as colunas dos templos maçônicos:

"Não se admitem mudança de qualquer espécie ‒ diz o Landmark nº1 ‒, pois desde que isso se deu, funestas consequências posteriores vieram demonstrar o erro cometido."

Mackey não se refere unicamente aos sinais que nos fazem reconhecer um Irmão, mas a algo muito mais abrangente: aquilo preserva os modos pelos quais é reconhecida a própria Maçonaria: os sinais de sua característica fundamental que consistem numa instituição livre, compostas por homens livres, reunidos em assembleias deliberativas e inseridos no princípio participativo e, portanto, democrático.(3)

Estes são os fundamentos do absoluto respeito às tradições específicas da Ordem, essenciais à regularidade e à jurisdição. Por isso nos impomos o respeito às opiniões e crenças de cada um, sem que isso curve nossa coluna à opinião ou à crença distorcida de que a Maçonaria é uma instituição fundada de cima para baixo.

Em todos os estágios da vida maçônica somos instados a comprometer nossa honra à regularidade maçônica e sua legitimidade expressa nos Landmarks e nas Constituições de Anderson. Esse compromisso se estende dos Aprendizes aos Grão-Mestres e não admite exceções.

Com os olhos voltados para o futuro, James Anderson deixou claro que mesmo um candidato "deverá solenemente prometer submeter-se às Constituições, aos Deveres e Regulamentos e a outros tais bons usos ('and to such other good' [60, VII]"; que "toda Grande Loja anual (refere-se às Assembleias anuais) tem o poder e autoridade inerentes para fazer novos regulamentos, ou para alterar estes, para real benefício desta antiga Fraternidade: contudo que os antigos land-marks sejam cuidadosamente preservados [70, XXXIX]"; que "todos os assuntos devem ser determinados na Grande Loja (refere-se à Assembleia) por maioria de votos, cada membro tendo um voto... [61, XII]"; que "... o Grão-Mestre deverá permitir que qualquer Irmão, Companheiro de Ofício ou Aprendiz possa falar, dirigindo seu discurso a sua Venerabilidade; ou fazer qualquer moção pelo bem da fraternidade, que deverão ser ambos imediatamente considerados e concluídos ou então submetidos à consideração da Grande Loja (refere-se à Assembleia) em sua próxima reunião, estabelecida ou ocasional [70, XXXVII]", etc.

Como, então, não somos uma instituição democrática?? Não foi este o exemplo que demos ao mundo nos últimos trezentos anos?!

Acima de quaisquer apoios às autoridades constituídas, colocados no mesmo patamar da honradez e da democracia, precisamos perceber com clareza quando somos assediados por ações de cunho político-partidário ‒ proibidas pelas Constituições de Anderson(4) e quando haveremos de defender equivocadamente um autoritarismo disfarçado em Estado Democrático de Direito.

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(1) O episódio em questão está descrito no meu livro "Grande Loja Maçônica De Minas Gerais-História, Fundamentos e Formação", nas páginas 112 e seguintes.

(2) O texto original tem 91 páginas que foram mutiladas no resumo que circula nas Lojas.

(3) Albert Galatin Mackey (1807-1881) foi ardoroso republicano norte-americano, médico, Grande Secretário da Grande Loja de Carolina do Sul, Secretário-geral do Conselho Supremo do Antigo e Aceito Rito da Jurisdição Sul dos Estados Unidos.

(4) "Somos resolutamente contrários a quaisquer políticas, pois até hoje elas nunca proporcionaram e nunca proporcionarão bem-estar nas Lojas" [54, 2] - (no inglês da época: "We are resolv’d against all Politicke, as what never yet conduc’t to the Welfare of the Lodge, nor ever will".) Texto original.

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